Diferencie as três principais cefaleias primárias (migrânea, tensional e em salvas) quanto à intensidade, caráter da dor e comportamento do paciente durante a crise.
Migrânea: dor moderada a forte, pulsátil; o paciente busca repouso em ambiente escuro e silencioso. Tensional: dor fraca a moderada, em aperto/pressão; o paciente geralmente mantém suas atividades. Em Salvas: dor excruciante, insuportável; o paciente fica inquieto e agitado, incapaz de ficar parado.
Explique a fisiopatologia da aura migranosa com base no fenômeno da Depressão Alastrante Cortical (DAC).
A DAC é uma onda de intensa despolarização neuronal que se propaga lentamente pelo córtex cerebral (2-5 mm/min), seguida por um período prolongado de hiperpolarização e inibição da atividade neuronal. A fase de despolarização inicial causa os sintomas positivos da aura (ex: escotomas cintilantes), enquanto a fase de inibição subsequente causa os sintomas negativos (ex: escotoma, parestesia).
Um paciente relata crises de dor periorbitária direita, lancinante, com duração de 45 minutos, acompanhadas de lacrimejamento e congestão nasal ipsilaterais. As crises ocorrem 3 vezes por dia, sempre no mesmo horário, inclusive o despertando à noite, há 3 semanas. Qual o diagnóstico e qual a estrutura cerebral implicada na periodicidade circadiana desta condição?
Diagnóstico: Cefaleia em Salvas. A estrutura implicada na sua fisiopatologia e periodicidade é a substância cinzenta do hipotálamo posterior, que funciona como um “relógio biológico” e está ativada durante as crises.
De acordo com os critérios da ICHD-3, quais são as 4 características da dor (das quais o paciente precisa ter pelo menos duas) para o diagnóstico de migrânea sem aura?
Qual é o tratamento abortivo de primeira linha para uma crise aguda de cefaleia em salvas e por que analgésicos comuns e opioides são ineficazes?
O tratamento de primeira linha é a inalação de Oxigênio a 100% com alto fluxo (10-12 L/min) por 15-20 minutos e/ou Sumatriptano 6mg por via subcutânea. Analgésicos comuns e opioides são ineficazes devido à intensidade excruciante da dor e ao seu rápido início e curta duração, que não permitem tempo hábil para a ação de medicações orais.
Um paciente com história de migrânea episódica passa a ter dor de cabeça mais de 15 dias por mês, há 4 meses. Em 10 desses dias, a dor tem características migranosas. Ele usa um analgésico combinado com cafeína quase diariamente. Qual o diagnóstico mais provável e qual o principal fator de cronificação?
Diagnóstico: Migrânea Crônica, provavelmente com Cefaleia por Uso Excessivo de Medicação (CUEM). O principal fator de cronificação é o abuso de analgésicos, definido como o uso de analgésicos simples em ≥15 dias/mês ou de triptanos/combinados em ≥10 dias/mês.
Diferencie uma aura visual típica de migrânea de um ataque isquêmico transitório (AIT) de território posterior.
Aura migranosa: Sintomas visuais positivos (escotomas cintilantes, zig-zags) e/ou negativos (escotomas) que se desenvolvem gradualmente ao longo de 5 a 20 minutos e geralmente precedem a cefaleia. AIT: Sintomas visuais puramente negativos (perda de campo visual, amaurose), de início súbito (segundos a minutos), e que podem ocorrer isoladamente ou com outros déficits de tronco cerebral.
O que é o estado (status) migranoso e qual a sua principal complicação aguda, que frequentemente necessita de internação?
O estado migranoso é uma crise de migrânea debilitante que dura mais de 72 horas (com ou sem tratamento). A principal complicação aguda são náuseas e vômitos incoercíveis, que levam à desidratação e distúrbios hidroeletrolíticos, necessitando de reposição venosa e tratamento parenteral.
Utilize o mnemônico SNOOP para listar 5 categorias de sinais de alerta (‘red flags’) que sugerem uma cefaleia secundária.
S (Systemic): Sintomas sistêmicos (febre, perda de peso) ou doença secundária (HIV, câncer). N (Neurologic): Sinais ou sintomas neurológicos (confusão, papiledema, sinais focais). O (Onset): Início súbito, “em trovoada” (“thunderclap headache”). O (Older): Início após os 50 anos. P (Pattern change): Mudança no padrão de uma cefaleia pré-existente (aumento de frequência/intensidade) ou cefaleia progressiva.
Um paciente de 60 anos, sem história prévia de cefaleia, desenvolve uma dor de cabeça nova, diária e progressiva. Qual é a principal preocupação diagnóstica e qual exame de imagem é mandatório?
A principal preocupação é uma lesão estrutural intracraniana, como um tumor cerebral primário ou metástase. O início de uma nova cefaleia após os 50 anos é um “red flag”. Um exame de neuroimagem, preferencialmente Ressonância Magnética com contraste, é mandatório.
Quais são os dois critérios diagnósticos que devem estar AMBOS presentes, além das características da dor, para o diagnóstico de cefaleia do tipo tensional?
Uma mulher de 30 anos apresenta uma cefaleia de início súbito e intensidade máxima instantânea (“thunderclap headache”) durante atividade física. Qual é a principal hipótese diagnóstica que deve ser excluída e qual o primeiro exame a ser solicitado?
A principal hipótese é Hemorragia Subaracnoidea (HSA) por ruptura de aneurisma. O primeiro exame a ser solicitado é uma Tomografia Computadorizada de crânio sem contraste.
Qual é a fisiopatologia da cefaleia do tipo tensional? Envolve contração muscular?
A fisiopatologia não é totalmente compreendida, mas o mecanismo periférico de contração muscular pericraniana (hipótese antiga) não é mais considerado o principal. Acredita-se que o mecanismo central seja mais importante, envolvendo a sensibilização de neurônios de segunda ordem no núcleo trigeminal cervical, resultando em um limiar de dor reduzido. A tensão muscular pode ser um fator contribuinte ou consequência, mas não a causa primária.
Descreva os sintomas premonitórios da migrânea. Em que fase da crise eles ocorrem e qual a sua base neurobiológica?
Sintomas premonitórios ocorrem horas a dias antes da aura ou da dor. Incluem alterações de humor (irritabilidade, euforia), fadiga, bocejos, rigidez cervical e avidez por certos alimentos (“craving”). A base neurobiológica envolve a ativação de áreas como o hipotálamo e o tronco cerebral, que modulam o humor, o apetite e o ciclo sono-vigília, antes da ativação do sistema trigeminovascular.
Qual a diferença fundamental no tratamento profilático da migrânea e da cefaleia em salvas? Cite uma droga de primeira linha para cada.
Na migrânea, o objetivo da profilaxia é reduzir a frequência e intensidade das crises. Drogas de primeira linha incluem betabloqueadores (Propranolol) ou antidepressivos (Amitriptilina). Na cefaleia em salvas, a profilaxia visa suprimir completamente as crises durante o período do surto (“salva”). A droga de primeira linha é o Verapamil em altas doses.
O que é infarto migranoso? Quais são os critérios para o seu diagnóstico?
É uma complicação rara da migrânea com aura, na qual um ou mais sintomas da aura persistem por mais de 60 minutos e o exame de neuroimagem demonstra um infarto isquêmico na área cerebral correspondente. O diagnóstico de AIT deve ser excluído.
Por que o uso excessivo de triptanos (≥10 dias/mês) pode levar à cronificação da migrânea?
O uso frequente de triptanos pode levar a uma regulação para baixo (down-regulation) dos receptores serotoninérgicos (5-HT1B/1D), tornando o sistema trigeminovascular intrinsecamente mais excitável e diminuindo o limiar para a deflagração das crises. Isso cria um ciclo vicioso de dor-medicação-dor.
Um paciente com cefaleia em salvas apresenta ptose e miose ipsilateral à dor. Qual a estrutura anatômica cuja disfunção explica estes achados?
Estes são componentes da Síndrome de Horner, que ocorre devido à disfunção da via simpática cervical. Durante a crise de cefaleia em salvas, a dilatação da artéria carótida interna dentro do seio cavernoso pode comprimir o plexo simpático pericarotídeo, causando a síndrome de Horner transitória.
Quais são os dois principais tipos de aura não visual na migrânea?
Diferencie a fotofobia e a fonofobia da migrânea dos sintomas autonômicos da cefaleia em salvas.
Na migrânea, fotofobia e fonofobia são uma hipersensibilidade sensorial à luz e ao som, respectivamente, que levam o paciente a buscar isolamento. Na cefaleia em salvas, os sintomas autonômicos são sinais de ativação parassimpática craniana ipsilateral à dor, como lacrimejamento, congestão nasal, hiperemia conjuntival, e não uma sensibilidade sensorial geral.
Um paciente apresenta-se na emergência com cefaleia e febre. Quais três sinais ao exame físico são cruciais para avaliar a possibilidade de meningite?
Qual a base farmacológica para o uso de betabloqueadores (ex: propranolol) e antidepressivos tricíclicos (ex: amitriptilina) na profilaxia da migrânea?
Apesar de mecanismos distintos, ambos atuam em vias centrais de modulação da dor. Betabloqueadores podem modular a neurotransmissão noradrenérgica e serotoninérgica e estabilizar membranas neuronais. Antidepressivos tricíclicos aumentam os níveis de serotonina e noradrenalina nas vias descendentes de inibição da dor no tronco cerebral, fortalecendo o sistema analgésico endógeno.
Um paciente de 70 anos refere cefaleia temporal unilateral, associada a claudicação da mandíbula e sensibilidade à palpação da artéria temporal. Qual é a principal suspeita diagnóstica e qual complicação grave deve ser prevenida?
Suspeita: Arterite Temporal (ou Arterite de Células Gigantes). É uma vasculite de grandes vasos. A complicação mais grave a ser prevenida é a perda visual permanente por neuropatia óptica isquêmica anterior, causada pela oclusão da artéria oftálmica. O tratamento com altas doses de corticoides deve ser iniciado imediatamente, mesmo antes da confirmação por biópsia.
Descreva os sintomas da fase posdrômica da migrânea.
A fase posdrômica, ou “ressaca da enxaqueca”, ocorre após a resolução da dor e pode durar até 48 horas. Os sintomas incluem cansaço extremo, dificuldade de concentração, rigidez ou dor cervical e sensibilidade do couro cabeludo. Alguns pacientes podem sentir euforia ou alívio.